sábado, 7 de março de 2009

saudade roseana

As coisas assim a gente não perde nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas.
Guimarães Rosa.

Uma homenagem ao meu Diadorim


Antes de tudo um forte: mais de uma vez, essas foram ditas, palavras de Euclides da Cunha, não de Guimarães Rosa. Mas o que importa: quando se está no sertão perde-se a noção de autoria, e quem um dia radiografou o solo e a paisagem, poderia também, como este, radiografar a alma do sertanejo: o senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de ideia e saudade de coração.
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Dizem que saudade corre com a distância ou com o tempo, mas também existe saudade anunciada. Ou nunca quis que um dia fosse mais que um dia, ou uma noite, mais que uma noite? Que o tempo parasse, que as horas se alongassem, para o tempo parar?
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Pois é. Digo que também eu queria ser como Júpiter na mitologia antiga: queria ter o poder de alongar as noites. Dizia, outro dia, que o mundo romano é também como o nosso. É e não é. Ou, então, me pergunto: será que Júpiter, para ter Alcmena ao pé de si, alongava a noite porque também não queria esperar? Por que também amava?
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Parece que não: para os romanos, a paixão é indigna. A entrega fere a virtude. “Paixão”, tem em latim, passio, o mesmo radical de “passivo” – apaixonar-se é ter a alma passiva, é submeter-se, é estar rendido.
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Porém, ah!... Se o pudesse... Teria alongado todas as noites para continuar a seu pé, ou no seu regaço. Diria mesmo que é bom estar rendido. E que não importa quantos quilômetros ou séculos nos separem – ainda assim seria o pequeno, coração, amante de sempre.
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Parece irracional. É mesmo. Pois amar é mesmo seguir a lógica do ilógico. Assim, por exemplo, o jovem amigo, diante de Diadorim, descobrindo o amor:
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quase que a gente não abria a boca; mas era um delém que me tirava para ele – o irremediável extenso da vida. O corpo não traslada, mas muito sabe, advinha se não entende. Perto de muita água, tudo é feliz.
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Tudo é feliz. Não é preciso entender nada, advinha-se.
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A realidade presente faz acreditar que a felicidade é possível, faz pensar que esse sonho do espírito humano é palatável, tangível, palpável, é material. É quase possível tocar o amor. Seu registro deixa marcas em nosso corpo, deixa vestígios em nossa alma – dele não é possível sair incólume, não é possível abster-se, é o irremediável extenso da vida.
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A vida extensa, de encontros e desencontros, de dias que findam e noites que terminam, anuncia os tempos que serão de saudade, dias de lembrança e espera. Sim, fosse um deus, faria tudo para alongar os dias e as noites, para sentir-me indefinivelmente contigo.
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Ainda com Rosa, o real não está na saída, nem na chegada. Ele se dispõe para gente é no meio da travessia.
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Nessa travessia, nela compartilho longos trechos contigo, por ela é preciso dizer que as saudades anunciadas serão ainda pequenas diante dessa imensa neblina em que minhas emoções se afogam.
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Amor vem de amor, Diadorim é minha neblina.

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Júpiter e Juno (Caramacci, 1560-1609)

Segundo a lenda, narrada por Plauto (séc. III a.C.), Júpiter teria se disfarçado de um general romano, em batalha, Anfitrião, e passado três noites com ela, na posição de seu marido. Como resultado, Alcmena ficou grávida de Hércules.






quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A cigana

Em resposta ao "Anjo triste".

“Água de coco!”

Sabe quando não pensamos em nada? Um amigo diria que é a única ocasião em que se pode pensar naquilo que somos e não somos, no presente e no futuro, nesses mistérios da vida em que o tempo, as preocupações do dia-a-dia e a mecanização do cotidiano nos fazem perder a capacidade de refletir.

Naquela tarde assim estava, como há muito tempo não fazia, embalado pela beleza daqueles pequeninos grãos de areia nos quais assentava meus pés, pequenos grãos daquela região que era conhecida pelo turismo gay da praia de Boa Viagem, em Recife.

Do ponto de vista de cada uma das pedrinhas douradas, em contraste com os últimos brilhos do sol no horizonte, o universo era realmente imenso, nem o marulho calmo, ou o vozerio das crianças que ainda brincavam ou dos vendedores de coco, bronzeadores, chapéus... – quantas coisas se podem vender hoje em dia! – eram suficientes para que meus olhos pousassem inquietos para essa realidade exuberante à volta e voltassem a fluir de forma trivial e comum, da forma banal como a vida adulta nos obriga a organizar todas as coisas da vida.

O inevitável era pensar que, apesar do cenário sob todos os aspectos paradisíaco e cheio de vida, daquela Recife que apenas conhecera na adolescência, pelos poemas de Manuel Bandeira ou por ser a terra da infância de Clarice, nessa mesma Recife dos prédios antigos, cordéis e dançarinos de frevo e maracatu – dos nadadores que desafiavam as placas que advertiam dos tubarões que passeavam pelas praias! –; nessa Recife, naquele dia, estava sozinho à praia, pensando em nada.

Recordava que, na adolescência, um dia considerei com meus amigos que o ano de 2010 era longínquo demais, que os caminhos da vida certamente nos levariam a cantos inimaginados e que teríamos a meta de nos reunirmos depois de dez anos. Ainda que dos detalhes sobrem pouco – como sempre, a nossa memória vai filtrando e apagando com o tempo a vivacidade das horas presentes, que passam a se enquadrar dentro de uma espécie de museu empoeirado e escondido lá nos recantos da nossa alma – ainda me lembrava do brilho que continha o nosso olhar, um brilho particular para a personalidade de cada um de nós, lá naquelas ruas mineiras, nas noites de sábado ou em outras noites.

Parecia que éramos bem mais velhos do que atualmente somos; a candura que era típica daquela juventude – de outras também? – nos legava um saber invulgar, posto que inconsciente, de entender que a vida é assim, um curso cuja destinação desconhecemos, ainda que dependa inteiramente e nada de nós – o primeiro dos muitos paradoxos com que seríamos formados ao longo desse curso.

Em que passagem desse trajeto transitariam, nesse instante, aqueles primeiros amores da adolescência?

Casmurro e inquieto, diria com Machado de Assis, ter naquela época cantado um duo terníssimo, das longas peregrinações ao meio dia, conversando sobre a mente e sobre o espírito, sobre o destino da humanidade e o nosso próprio, com meu mais jovem e belo amigo, dado a caminhadas exaustivas e sem fim, que eram longas e felizes ao seu lado. Depois um trio, com o assomo daqueles olhos latos e profundos, um dia considerados oblíquos, um dia considerados ciganos, em sua personalidade teatral e bela, da voz doce, das mãos e letras macias. Cantamos, ainda, depois, um quattuor, com aquele do qual éramos agregados em sua bela família, aquele que possuía o olhar arguto e a mente inquieta e que deixava pouco transparecer – a não ser em suas palavras escritas – seu humor inteligente e muitas vezes pessimista acerca da vida. Cantávamos, como crianças sem medo, construindo uma aventura que era sobretudo fantástica, mas que era essencialmente nossa.

De relance direciono meu olhar para um grupo de crianças distantes, são meninos descalços, afeitos às tardes recifenses, a esculpirem um castelo com os pequenos tijolos de areia da praia. Reconheço imediatamente que nelas ainda permanece algo de essencial que possuíamos, algo de profundamente humano e puro que trazíamos conosco. Esse era o elo mais forte que nos unia; reconheço nelas um pouco de nós, das crianças e jovens adolescentes que éramos, crescidos e criados no Colégio Militar.

Talvez, em instantes, os seus pais as levarão dali, para suas casas, onde ficarão provavelmente brincando em outras fantasias, sem pensarem demasiadamente na vida, sem se importarem com o dia de amanhã ou sem sofrerem pelo que ainda não existe. Amar é a terna inocência e a única inocência é não pensar!, repetia comigo as palavras com que me deliciara um dia nas tardes da adolescência, daquele que já era considerado o mestre dos heterônimos de Pessoa.

“Onde estão os meus amores da adolescência?”, repito, em semi-tom, conversando comigo mesmo, com o meu coração, como Ulisses, um dia fizera regressando para Ítaca.

“Eles ainda estão dentro de você!”
Vinha daquela voz falando ao meu lado, com a qual me assustava, com uma mulher vestida à moda cigana, pegando subitamente em minha mão.

A cigana que surge na praia é o eterno outro do qual fugimos: o lugar da diferença da qual nos escondemos e temos medo. Recife é uma cidade perigosa!, me disseram muitas vezes, não se pode confiar nas pessoas.

As rugas do rosto, a pele queimada pelo sol, as jóias pesadas e manchadas, o olhar metafísico e algo superior, como se fosse, enfim, capaz de enxergar coisas invisíveis, de penetrar um ambiente reservado a uns poucos, e dizer coisas sobre o presente e o futuro dos indivíduos.

Não estimo bem, mas aquela cigana velha me rendia: não sei por que comoção aceitei ouvir o que dizia ao ler as linhas da minha palma. Não se tratava de bruxa vulgar, como, afinal, às dezenas se assomam nesse período de carnaval, mas seu semblante ocultava algo de nobre que não conseguia disfarçar e algo de humano que sempre me comoveu, dos muitos lugares que passou, das muitas mãos que talvez teria lido, das emoções que um dia teria registrado nessa e nas outras praias onde, nômade, teria a vida lhe levado.

“Meu filho, o amor e a amizade, quando são sentimentos puros e verdadeiros, jamais se perdem. Um afeto que se distancia permanecerá ligado ao nosso coração se o dele também sentir por nós o amor que lhe dedicamos. Não chore, minha doce criança, perceba antes que o seu amor é grande e pode alcançar o coração do irmãozinho que se foi através dos atos de amor que realizar por outras criaturas.”

O amor que um dia fazemos nascer dentro de nós jamais se apaga; não é o tempo, a distância, as caminhadas que hoje são solitárias ou as risadas que já há muito se silenciam, nada disso é forte o suficiente para apagá-lo.

“Guarde consigo somente os momentos felizes e a imensa alegria que representou o seu amor por ele, na certeza de que foi tão bom para você, quanto para ele. O amor jamais se perde, meu pequenino, o amor jamais se perde...”

Olhando demasiadamente para o solo firme onde queremos pisar, muitas vezes esquecemos da abstração desse límpido céu que nos envolve: o céu é sempre o mesmo, está sobre mim e sobre todos aqueles que amamos e que continuam a fazer parte de nossa vida, no Brasil e fora dele, nessa vida ou em outras.

“Não tenha medo de amar novamente e não faça adormecer dentro de si o menino bom que era um dia, os sonhos que um dia lhe alimentaram a vida, e desenharam o seu horizonte. Persiga aqueles ideais, que são ainda os de hoje, e não se esconda para outros amores que também tornarão a sua vida mais bela a partir de agora. Talvez esse amor esteja esperando por ti aqui em Recife ou em outro lugar.”

Com aquelas palavras, a velha cigana se afastou, levando as poucas moedas que talvez tenha lhe dado, caminhando em direção àquele horizonte infinito, talvez ao encontro daqueles que ela amava e lhe esperavam naquela tarde.

Não consigo depreender ao certo de onde ela tenha vindo, se ela realmente tenha existido e me olhado profundamente dentro dos olhos, ou se ela era um sonho ou uma imagem. Sei que suas palavras estão agora comigo, me fazem novamente acreditar no amor, nessa emoção que aprendi a conhecer na adolescência, ao lado desses que hoje não estão exatamente aqui perto de mim.

A todos eles – Márcio, Juliana, Rafael – e depois tantos outros com que a vida me presenteou – seria injusto enumerar... – minha inteira gratidão, pelos momentos vividos e a certeza plena de que sempre valerão as palavras de ontem, onde quer que transitem as nossas emoções, pois onde depositamos o nosso tesouro, é aí que guardamos o nosso coração.

Com o ocaso do sol, bati a areia dos pés, sem pensar em nada, levantei-me e fui embora.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Carta a um ex-esperantista

O texto a seguir é a publicação ipsis litteris de uma carta enviada por mim a certo esperantista que decidiu abandonar o estudo e o cultivo da lingvo internacia, desolado diante das frustações que argumentava que o Esperanto trazia diante da promoção da paz.
***
(...)
Onde houver reflexão acerca das línguas que encerrem consigo um ideal - quer seja de legitimidade religiosa, como o latim, quer seja de unificação de um povo, como o hebraico moderno, quer seja de neutralidade e unificação transnacional, como o Esperanto - aí haverá dissonâncias e intensa polêmica. É por esse motivo que, em pouco mais de cem anos de existência do Esperanto, não foram poucos aqueles que se armaram com argumentos científicos, políticos ou mesmo religiosos desfavoráveis ao Esperanto sem conhecê-lo, e também não foram poucos aqueles que conhecendo-o de perto logo se desmotivaram a continuar o seu cultivo.

Esses primeiros, a meu ver, não merecem nossa consideração aqui, por se basearem apenas em preconceitos e não terem, de fato, um conhecimento de causa que torne legítima a argumentação. Já os segundos, que, com justo motivo, decidem abandonar o movimento, estes, sim, merecem a nossa atenção. É por isso que tomo a liberdade de te escrever.

Concordo plenamente que o Esperanto não resolveu e não resolverá os conflitos humanos, porque eles se assentam mesmo na idéia de diversidade e jamais haverá duas criaturas - ainda que nasçam no mesmo berço ou falem a mesma língua, que sejam iguais. A idéia interna por que os esperantistas costumam lutar não se trata de uma postura talvez um tanto ingênua de que se falarmos uma língua politica e culturalmente neutra será o suficiente para dirimir as mazelas que separam os povos, que ferem as culturas e as dizimam sob o peso das armas e das riquezas.

Como lingüista, sou forçado a reconhecer que o Esperanto representa uma, e apenas uma, língua, no vasto espectro das linguagens humanas. Cada língua com sua cultura representa um recorte sempre único de se entender e construir o mundo, e, por isso, nem o Esperanto, nem outra língua qualquer, possui o privilégio de ser visto como melhor que nenhuma outra. Por outro lado, é preciso também reconhecer que o Esperanto representa um movimento cultural sem precedentes, pois inaugura um fenômeno cultural cujas fronteiras ultrapassam os limites territoriais dos países, causa estranhamento àquelas pessoas somente arraigadas aos valores de sua terra, amplia os horizontes de percepção e - porque não? - compreensão da diversidade humana. É verdade que no Brasil talvez a maior parte dos Esperantistas sejam aqueles que se afinizem com este ou aquele credo religioso, e, em nome dessa crença, abracem também o Esperanto. Mas reconhecendo que a essência do Esperanto é exatamente não pertencer a ninguém e a todos - ainda que o paradoxo pareça já gasto - é justo aceitarmos que demonstrar as suas preferências, seus modos de agir e pensar, e também as suas discordâncias a esse respeito, não somente é legítimo - posto que humano - mas, sobretudo, é apanágio das linguagens humanas, definem a sua essência. De outra forma, o Esperanto não poderia ser considerado sequer uma língua.

Ademais, penso, na limitação das minhas opiniões, que a paz não é fruto da uniformidade - que, poderíamos pensar, seria a solução do problema de Babel - mas é filha do reconhecimento e respeito mútuo das diferenças. É resultado, exatamente, desse diálogo, desse sincretismo que, especialmente no Brasil, é sempre tão presente em nosso dia-a-dia. A paz não seria alcançada pelo privilégio concedido a uma única língua, a uma 'supralíngua', como seria pensado na opinião dos Esperantistas mais idealistas, mas nas pequenas, mas efetivas contribuições que cada ser humano, falando em suas próprias línguas, ou confraternizando-se entre si pelo Esperanto (ou não), dão às suas esferas de ação a cada dia. O Esperanto é um movimento cultural, transnacional, sim, mas humano. É uma possibilidade de atuarmos para a paz, como todas as outras línguas também o são. Depende somente dos esperantistas.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Ensaio sobre o amor no mundo moderno

...Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos. Meu pai, logo que teve aragem dos onze contos, sobressaltou-se deveras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil.

Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas.


Nunca tivemos tanta liberdade quanto a que temos nos dias de hoje. Liberdade individual, de ir e agir, de viver cada um à sua maneira, de levar a vida como entende, sem ser restringido por discurso cerceador ou moralizante de nenhuma sorte, sob pena de poder-se sempre processar quem quer que seja que intervenha contra a nossa sagrada, custosamente adquirida, liberdade.

Fugindo das amarras das convenções, dos grilhões da história, do preconceito e dos atavismos, conseguimos, enfim, possuir, pelo menos em tese, pelo menos na lei, a liberdade que desejamos, aquela boa e necessária possibilidade de sermos senhores do nosso destino e fazermos da nossa vida aquilo que bem entendemos.

O grande paradoxo é que, diante desse bem precioso que é a liberdade, o sofrimento continua a dar as caras em todas as suas cores diante de nós e também dentro de nós. Basta olhar de relance à nossa volta: vivemos em uma sociedade doente do sentimento. Desconsiderando a expressão superficial e exterior das agressões entre os indivíduos, na intimidade de cada um persiste a insegurança e o medo, a sensação de traição e abandono, a mágoa e o remorso, o desânimo e a desilusão, a raiva e a impaciência, a tristeza e o desencanto... Seria demais enumerar todas os sintomas da sociedade do desamor.

Tragicamente, o sonho do amor perfeito parece ter mesmo sido sepultado com Romeu e Julieta em seu sonho na juventude. Na sociedade movida a aparências de felicidade, nas cores inebriantes da moda e à luz da lei do mais rico, impera o pragmatismo das relações fortuitas e casuais, dos encontros impelidos pelos apelos do corpo, da pouca, quase nenhuma, possibilidade de doação e entrega real. Não temos tempo de esperar o tempo do outro, a vida é rápida e é preciso pensar em nossa própria satisfação em primeiro lugar. Isso é o que chamamos de gostar de si.

E assim os consultórios psicanalíticos, que à época de Freud curavam criaturas castradas e reprimidas, recalcadas e neuróticas, hoje trata doentes vitimados pela liberdade em excesso, por terem se permitido ferir-se e ferir outros, na busca exclusiva do amor a si, que nem merece esse nome, senão outro, egoísmo, a expressão crua e dura, humana, do ego sobre todas as aspirações que poderiam um dia ser realmente superiores.

É a sociedade frenética, o vai-e-vem, a velocidade dos encontros e desencontros em chats, em baladas animadas e entorpecidas, com muita música, muito som, muita bebida, muito glamour, mas sem nenhum amor. Alegrias que duram a dose de um energético (com ou sem adicionais).

Nessa sociedade, estamos, de fato, construindo uma moral compatível com nosso mundo, uma moral elástica, industrializada, de papel. A nossa moral permite-nos usar as palavras como queremos, esvaziando os seus significados. “Eu te amo” não tem mais o peso e o valor que um dia já teve, pois às belas palavras, não se somam mais a força das condutas, falamos, falamos, pobres daqueles que ainda acreditam. Estamos mesmo na sociedade da propaganda, das palavras vazias e inúteis, do "te amo" sem cor, sem emoção, sem sentimento. É a nossa campanha de marketing.

Pois, na verdade, o capitalismo pós-industrial inaugurou nos tempos modernos também a lei da barganha de sentimentos: migalhas de atenção aqui compram o interesse dali, ou então a sessão de cinema que acaba saindo de graça ou então, quem sabe, aquele presente que sempre quis ganhar. Compramos os sentimentos, pagamos o seu preço, mas também colocamos muito de nós à venda. Queiramos ou não, vendemos e negociamos: o que temos e o que não temos, o nosso tempo, a nossa atenção, a nossa vida, a nossa casa, a nossa saúde, o nosso planeta, até mesmo a nossa liberdade. No final da negociata, ainda estamos insatisfeitos, uma sensação de vazio, e de que alguma coisa não saiu bem permanece, em casos extremos, leva a atitudes igualmente extremas.

A conclusão, em suma, é que os sentimentos que temos, não vão além das impressões mais superficiais, e, por conta disso, em que pese também a irrefreável necessidade de olharmos para nós mesmos somente, somos construtores recíprocos da nossa desilusão amorosa. Chamamos de amor a presença de tudo, menos Amor, em nossas relações.

No final de contas, o saldo final não parece ser ainda satisfatório, vivemos a vida pelo prazer, mas não encontramos o prazer simples de viver a vida. Quisemos demais ser amados e não amamos. De fato, nunca tivemos mesmo o Amor, pois o amor que temos é o amor que damos.

Ah... o Amor.

Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, mas não tivesse amor, eu seria como o bronze que soa ou um címbalo que retine. Se eu tivesse o dom da professia, se conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, se tivesse toda a fé, a fim de remover montanhas, mas não tivesse amor, eu nada seria. O amor é paciente, é benfazejo; não é presunçoso, nem se incha de orgulho; não faz nada vergonhoso, não é interesseiro, não se encoleiriza, não leva em conta o mal sofrido. Ele desculpa tudo, crê em tudo, espera tudo, suporta tudo.
(I Coríntios 13)



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POST SCRIPTVM - em março de 2009.
Uma leitora me escreveu uma carta, considerando aspectos do meu texto que estariam banalizando o discurso psicanalítico. Ainda que isso parece algo de um 'benevolentiae captatio': afirmo que os textos do 'Cup of Tea' não guardam pretensões científicas, não são tratados sobre quaisquer assuntos que abordam. O discurso psicanalítico - assim como tantos outros discursos que participam da nossa cultura - faz parte de um senso comum, ainda que dele produza simulacros, em que outros discursos se produzem. É desse senso comum que parto, ao usar os termos psicanalíticos em questão.
Para fazer justiça ao comentário gentil da leitora, reproduzo, abaixo, suas palavras ipsis verbis, para apreciação dos outros leitores.
Um grande abraço!
"Na realidade, na época de Freud, assim como hj, não trabalhamos com o conceito de cura, mas com o de qualidade de vida. Sobre "castradas, reprimidas e neuróticas", com, angústia de castração todos passamos por ela. A repressão e o recalque são mecanismos de defesa e, sem eles, estaríamos na barbárie. Sobre neurose, quem não é neurótico é psicótico e a diferença entre o normal e o patológico é quantitativa e não qualitativa.
Sobre o egoísmo como função egóica, é um pouco mais complicado por envolver conceitos como narcisismo primário e secundário.É claro que somos atravessados pela cultura, mas a dinâmica e a economia psíquicas são as mesmas em quaisquer época ou cultura.Sabe, Fábio, muito tem sido discutido no meio psicanalítico sobre a banalização da psicanálise e sempre concluímos que nós, psicanalistas, temos nossa responsabilidade nisto por nos omitirmos narcisicamente usando como justificativa que nosso conhecimento basta a nós."

domingo, 6 de julho de 2008

Relato de viagem

Quare id faciam, nescio. Sed fieri sentio.

“A vida é a arte do encontro...”, a frase ali estampada naquele cartaz, enquanto refletia comigo: ali me encontrava, novamente com malas na mão, registrando o frio do vento, a brisa do mar e coração aos saltos diante daquela ocasião.

Manhã movimentada, transeuntes iam e vinham de lugares distantes, tudo normal naquele aeroporto. Os aviões saindo de Vitória traziam-me idéias poéticas. Impressões ainda vivas dos últimos dias, dos trânsitos e praias, das ansiedades e, finalmente, dos resultados que, de certa maneira, obrigavam-me a redefinir planos e aspirações para o porvir.

Uma sensaçao de tristeza e alegria me contemplava simultaneamente naquele momento, meu pensamento, usualmente dado a idéias viajantes, me sugeria agora pé no chão, nada mais apropriado do que isso para quem estava prestes a voar.

Aquela manhã era estranha, observando naves que pousavam estrondosamente e levantavam vôo em direção ao nublado céu, oh, Deus, o horizonte infinito comporta os sonhos a que aspiro?

Diante de todos, eu era apenas silêncio, nenhuma palavra calmamente pronunciada fazia alarde da minha origem, enquanto, nas minhas lembranças, apenas gratidão, nada mais. Revivia os últimos dias, como, de certa maneira, tinham sido um evento marcante na minha vida, mas sobretudo, a oportunidade que, enfim, foi possível de ver o litoral capixaba por outros ângulos, na praia vazia da tarde fria ou mesmo do alto da construção multissecular, onde, por um algum instante, meus olhos se voltaram, finalmente, para mais perto de Deus: muito obrigado!

Como era bom, sentir, novamente, a presença daquele Deus que tanto sentido tinha dado a boa parte da minha vida, mas cujo hálito havia bastante tempo não mais sentia. A respiração de Deus deveria mesmo ser como aquela visão no alto do convento da penha: tocada pelos brilhos refletidos do sol na superfície do mar, em silêncio e respeito circunstante, vento calmo e nada mais.

Subitamente, lembrei-me de dias atrás, da longa caminhada ao longo da costa, na tarde que revolvia as ondas do oceano e despedindo-se do sol, exemplificava a renovação do dia.

Bem se percebia que, se eu era tipicamente um mineiro revisitando as praias do Espírito Santo, também ela era uma viajante em terras estrangeiras. Vinha do norte, da terra das pessoas de bom coração, da terra das pessoas generosas. Assim era ela, minha então mais nova amiga, embora uma sensação me dissesse ser amiga de outros tempos, de outras vidas, nunca sabemos, enfim, quando encontros são, na verdade, reencontros.

“A vida é a arte do encontro...”

Aqui estava eu, de volta a minha casa, igualmente em terra forasteira, depois desses dias. Como era rápida a viagem de volta, o retorno à vida de antes e a redefinição dos meus planos. Como as coisas mais significativas da vida, aquelas lembranças de amizade tinham sido como um grande presente inesperado, daqueles que sempre quisemos ganhar e jamais tínhamos a oportunidade.

Aqui estava eu, sentado diante do cartaz da frase anônima, escrita em amarelo-ouro sobre azul-mar, era o próprio reflexo daquele sol do alto do convento. Aquela frase, sem autoria e referências no cartaz, descobriria tempos depois ser o primeiro verso do poema-canção de Vinícius de Morais, cuja oportunidade me obriga a publicá-lo:


“A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre alguém à sua espera
Com os olhos cheios de carinho”


Obrigado, Cláudia, pelos seus olhos de carinho plenos, que me provaram que, apesar dos desencontros da estrada, ainda é possível encontrar um coração generoso a nossa espera.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Nau desconhecida

"É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas."


Machado de Assis. Dom Casmurro.


Leitor amigo, no livro da vida, ainda que pese a metáfora desgastada, muitas vezes pensamos que já conhecemos todas as saídas, ou, pelo menos, os caminhos de fuga principais, nunca se sabe lá. O que não conhecemos são as páginas em branco que encontramos logo em seguida, ou, o que é mais dramático, nem sequer esperamos que elas estejam lá, cândidas e brancas, a espera de serem escritas.


Naquele dia, a chuva finíssima tornava branca a janela do ônibus, e opaco estava aquele horizonte. Pessoas adormeciam na manhã de domingo, mal-ajeitadas nas poltronas macias do veículo veloz, que singrava as estradas molhadas como as caravelas antigas. Diferente das embarcações, aquela nau sabia o seu destino e, aparentemente, pelo que contam os registros, a hipótese de uma descoberta era inverossímil. Páginas cotidianas, em branco e preto, aquela pessoa lia, na poltrona 15, nem longe demais do acesso à saída, nem perto demais do fundo do veículo: perto o suficiente dos caminhos de fuga principais, nunca se sabe lá.


O jornal amassado, dançando nas mãos que, inquietas, o amassava; a mente estava distante o suficiente. A cada passo previsto, nada que pudesse ser considerado uma surpresa, nem mesmo aquela chuvinha, garoa fininha, fria, pobres dos moradores de rua, pobres daqueles que estão do lado de fora da sociedade e expectam o rico colorido das cidades, cobertos de cinza e nada mais.


Por um instante, era possível acreditar que tinha controle absoluto sobre a situação e sobre o dia, o domingo arquitetado a quatro mãos, há quatro dias, há quatro meses esperado. Ou melhor, há quase quatro meses: no dia em que “o amor era possível”. A caravela singrava os mares de pedra e a rica cidade de pedra surgia aos olhos, o jornal era apenas um (pre-)texto. Nada mais que palavras, muitas verdades se dizem mesmo é no silêncio, estou farto de todas elas, nem as digo, nem as quero ouvir mais, pensava.
-
Para falar ao vento bastam palavras, para falar ao coração são necessárias obras, dizia, no roda-pé do jornal de domingo, o verso célebre, que comemorava o quarto centenário do grande literato, cuja comemoração ali, palidamente, se anunciava, no rodapé, entre crimes e outros escândalos: há sempre mais espaço para eles nos jornais!


“Para falar ao vento bastam palavras...”, ele pensou. A linguagem dos atos é mais poderosa que aquele vento frio, das ruas da grande cidade, a cidade que trabalha não importa se é domingo, não importa se é de manhã, não importa, enfim, se a chuva traz o frio e se as pessoas preferem, enfim, dormir naquele ônibus, como a senhora que se acomodava no ombro do rapaz.


Mas a vida, leitor amigo, é um livro falho. É um livro cujas páginas não têm numeração, não importa a ordem em que se leia, nunca saberemos quando, nem se chegou ao fim. Aquele jornal tinha páginas contadas e, na parte inferior de um de seus cadernos, onde mesmo a citação de Vieira, o poeta quadricentenário, tinha se encontrado, “para falar ao coração são necessárias obras”, na mesma página, ali também se anunciava a apresentação musical da cantora de voz doce, de letras serenas e suaves, que tinha a amplidão do céu em seus tons e a bravura do mar em sua voz. Aquela apresentação que era planejada e se conhecia, há quatro dias, quatro semanas, quatro meses e (por que não?) quatro anos esperada.


Belíssima voz, serenas músicas e até mesmo, difícil de se dizer, vivas cores daquele espetáculo, que ficaria impresso em CD e, o que é mais duradouro, na memória daquele viajante, que, então, apenas segurava um jornal e olhava as saídas, como se as conhecesse todas, nunca se sabe lá.


Não seriam planejados, ainda, o abraço a ser recebido e aquele sorriso, aquelas mãos que lhe aqueceriam à noite. Não foram planejadas muitas outras coisas que, como dizem os relatos, tornariam o dia frio de domingo em um dos dias mais calorosos já vividos nos últimos tempos, o dia em que não foram ditas palavras, estas que os ventos levam (já dizia Padre Antônio Vieira...), mas foram trocados gestos, abraços, beijos e olhares. Aquele olhar em que o viajante da caravela se perderia. Aquele olhar que haveria de mostrar ao rapaz do jornal que não se planeja a vida como se quer, que a vida é tal como um livro falho e contendo páginas avulsas em branco.


Nesse livro, leitor amigo, as lacunas de uns são preenchidas por outros. É um livro em que cada um se entrelaça em um movimento muitas vezes anônimo, mas essencial: a senhora adormecida no ombro do jovem, este que resolvera, então, também deitar sobre aquela senhora anônima – e desistir da leitura do jornal. Este, o da apresentação da cantora bela, do verso de Vieira. Faltavam apenas alguns minutos. Faltavam apenas alguns minutos. Faltavam apenas alguns minutos. Para dizer no telefone, ainda perdido naquela imensidão: cheguei.
Secva.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Um recado da esperança



"Bom dia ao sol!"
a
Pensou aquele homem, "todos deviam dar bom dia ao sol, em primeiro lugar, por um dia tão bonito como esse". Diferente da manhã anterior, aquela manhã cinzenta, a chuva fininha, molhando a barra da calça, deixando as pessoas tristes e melancólicas. Tudo fica mais cinza em dias de chuva.
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Podemos dizer que também ensolarado estava o pensamento daquele homem que caminhava solitário, na rua movimentada da cidade, observando o tempo e o dia, sorrindo para si, satisfeito com a vida.
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Quem é esse homem? - me pergunto. E, como aquelas coisas que vêm à nossa mente sem autoria, tenho a resposta disso. Esse homem pode ser qualquer um de nós. Apesar do mecanismo incessante do cotidiano (que brutaliza as criaturas), esse homem pode ser eu mesmo, ou você, se encontramos nas coisas mais comuns e triviais à nossa volta, pequenas oportunidades de ser feliz.
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A sabedoria popular sempre diz que nossas aflições presentes podem ser sempre vistas como o resultado mais ou menos direto de nossas ações pretéritas. É a história do "quem planta colhe", como se a lei de ação e reação da matéria fosse válida também para nossas ações no mundo. A cada atitude minha, uma reação para mim mesmo. Assim, o homem é, num grande número de casos, o artífice silencioso dos próprios infortúnios, do que deriva a constatação de que nosso presente é sempre reflexo de escolhas pretéritas.

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Entretanto, remoer o passado e suas dores não parece ser atitude sensata. Afinal, e quanto ao futuro? Por isso, cultivar o sofrimento é estacionar em meio à viagem; é desenvolver a culpa dolorosa que paralisa e não nos impulsiona a seguir. A meu ver, a dor só é positiva se entendida como instrumento (transitório!) para o nosso progresso, para o nosso aprendizado.
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“Deus é Pai!”, disse Jesus Cristo que, não interessa a religião, pode ser visto como um grande exemplo para toda a Humanidade. É pai, não um carrasco que se compraz com o sofrimento das criaturas: vivemos para ser felizes, reunindo as condições necessárias para o nosso amadurecimento, com (e apesar de) nossas imperfeições. Certa vez, Jesus ainda teria dito aos discípulos: “Na verdade eu vos digo, fareis as obras que eu faço e muito mais!” (Jo 14:12) A aposta do Mestre era na capacidade humana de superação, na perfectibilidade do ser humano, na sua destinação espiritual, não no seu sofrimento ou fracasso.
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Assim, por mais que nos consideremos afastados daquele estado de espírito que nos permite reunir em nós a paz interior, a consciência tranquila e a satisfação do dever cumprido, resta-nos sempre a esperança de um dia alcançarmos, com nossos esforços, a felicidade que nos é merecida.
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Enquanto isso, lembremos do aconselhamento de Emmanuel, em Sinal Verde: “quando o céu estiver em cinza, a derramar-se em chuva, medite na colheita farta que chegará do campo e na beleza das flores que surgirão no jardim”.
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É preciso observar o outro lado de tudo e, então, sairmos, como aquele homem, na manhã ensolarada do outro dia depois da chuva, observando a beleza da vida e agradecendo a Deus o privilégio de existir.